Timbédra — grafada também Timbedgha — situa-se na região de Hodh Ech Chargui, no sudeste da Mauritânia, e conta-se entre os principais centros culturais e históricos do país; os habitantes chamam-lhe afetuosamente Itnibé. Os seus atrativos aliam um património humano antiquíssimo a uma geografia variada: é ao mesmo tempo base para explorar a história dos antigos reinos africanos e capital da arte e das letras chinguitianas. A cerca de 65 a 70 km para sul, o departamento abriga o sítio arqueológico de Koumbi Saleh, capital política do histórico Império do Gana, inscrito na lista indicativa da Mauritânia junto da UNESCO — o que faz de Timbédra um ponto de partida privilegiado para o turismo arqueológico e de descoberta. A cidade é ainda, historicamente, o berço da música tradicional mauritana, o hawl, e da literatura popular: há mais de dois séculos mantém vivo esse legado artístico, e os apreciadores do canto e do folclore mouro autêntico vêm conhecer os modos musicais locais. A leste do departamento estende-se o famoso lago de Mahmouda, um dos grandes destinos de ecoturismo da região, sobretudo na estação das chuvas, quando a terra reverdece e atrai aves e rebanhos. Visitar Timbédra e as suas aldeias é, por fim, viver a cultura de perto: partilhar a vida dos acampamentos e participar no ritual dos três copos do chá mauritano.
🇲🇷 Mauritânia
Timbédra
O que ver
Dali Koumbé
Dali Koumbé é uma aldeia do sudeste da Mauritânia, a cerca de 60 km do departamento de Timbédra, conhecida por um fenómeno quase único no mundo: dos seus aproximadamente 200 habitantes, cerca de 180 vivem com cegueira congénita. A tradição local faz remontar a sua origem a uma antiga profecia transmitida de geração em geração, a de uma mulher que sonhou que daria à luz um homem justo, mas cego. A ciência, por seu lado, atribui-o a uma mutação dominante do gene GJA8, essencial ao crescimento do cristalino e à maturação das suas células fibrosas, responsável pela catarata congénita. Sendo a transmissão dominante, basta uma única cópia da mutação para que a doença se manifeste, o que explica a sua recorrência nas mesmas famílias ao longo de gerações sucessivas. Apesar deste desafio, os habitantes desenvolveram estratégias de adaptação notáveis: deslocam-se com à-vontade no seu ambiente apoiando-se nos outros sentidos, e a sua comunidade distingue-se por uma forte coesão social e espiritual. Entre as suas figuras mais conhecidas está o xeque Mohamed Mahmoud, imã cego que ensina o Alcorão às crianças da aldeia. A população vive sobretudo da agricultura e dos serviços prestados às aldeias vizinhas.
Koumbi Saleh
Koumbi Saleh, na região de Hodh Ech Chargui, no sudeste da Mauritânia perto da fronteira com o Mali, é um dos mais importantes sítios arqueológicos da África Ocidental: é identificado com a capital do antigo Império do Gana, que os seus fundadores soninquê chamavam Wagadu. Do século VIII ao XIII, a cidade foi um entreposto decisivo do comércio transsariano. Situada onde o Sara árido encontra a fértil savana sudanesa, trocava ouro, marfim e excedentes agrícolas da África Ocidental por sal, tecidos, cobre e cavalos vindos do norte. Em 1068, o geógrafo andaluz Abu Ubayd al-Bakri descreveu-a no seu Livro dos Caminhos e dos Reinos como uma cidade dupla: a cidade mercantil, habitada por comerciantes e sábios muçulmanos e dotada de doze mesquitas, e a cidade real, num bosque sagrado, sede do rei soninquê não muçulmano, com o seu palácio, tribunais e santuários ancestrais. As escavações, iniciadas em 1914 e prosseguidas por Thomassey e Mauny, depois por Robert e Berthier, revelaram um conjunto urbano de cerca de 45 hectares, com ruas pavimentadas, uma grande mesquita monumental e construções em lajes de xisto ligadas por argamassa de terra (banco); no auge, a população atingiu 15 000 a 20 000 habitantes. O declínio foi gradual: aridez crescente, deslocação das rotas comerciais para leste, rumo a Tombuctu e Gao, conquista sosso por volta de 1203 e integração no Império do Mali por volta de 1240, até ao abandono total no século XV. O sítio consta da lista indicativa da Mauritânia junto da UNESCO.